Uma mulher na universidade: o discurso de 1727 e a cátedra de Bolonha
Oratio qua ostenditur artium liberalium studia a femineo sexu neutiquam abhorrere.
— Título do discurso de Agnesi, 1727
A frase latina quer dizer: “Discurso em que se mostra que os estudos das artes liberais não são de modo algum impróprios para o sexo feminino”. Agnesi tinha nove anos quando o recitou diante dos convidados do pai, em 1727. O texto tinha sido escrito em italiano por um dos seus professores; ela o traduziu para o latim e o decorou.
As artes liberais
As “artes liberais” eram as matérias que, desde a Idade Média, formavam a base da educação superior: gramática, retórica e lógica, de um lado; aritmética, geometria, astronomia e música, do outro. Eram as matérias das universidades, e as universidades eram para homens. O discurso de 1727 defendia que nada na natureza feminina impedia uma mulher de aprendê-las, e lembrava as mulheres sábias da Antiguidade e da história recente.
Algumas exceções
Na Itália do século XVIII, algumas mulheres tinham conseguido furar o bloqueio. Em 1678, Elena Cornaro Piscopia recebeu em Pádua um doutorado em filosofia, o primeiro concedido a uma mulher. Em 1732, a Universidade de Bolonha deu o doutorado a Laura Bassi, de vinte anos, e logo depois uma cátedra de filosofia natural; ela se tornaria uma das grandes divulgadoras da física de Newton na Itália.
Fora da Itália, a francesa Émilie du Châtelet publicou em 1740 as Institutions de physique (o título é parecido com o das Instituzioni de Agnesi, e não por acaso: os dois livros queriam ser manuais) e passou os últimos anos traduzindo os Principia de Newton para o francês, numa tradução que se usa até hoje.
O papa e a cátedra
Bolonha tinha um aliado poderoso. Prospero Lambertini, arcebispo da cidade, foi eleito papa em 1740 com o nome de Bento XIV e continuou protegendo a universidade e o seu Instituto de Ciências. Foi ele quem apoiou Laura Bassi e, em 1750, depois de ler as Instituzioni, nomeou Agnesi para a cátedra de matemática.
Agnesi agradeceu e aceitou o título, mas nunca saiu de Milão para ensinar. A nomeação continuou nos registros da universidade por cerca de 45 anos, como uma honra. Para muitos historiadores, o episódio mostra ao mesmo tempo o reconhecimento e os seus limites: uma mulher podia ser homenageada com uma cátedra, mas ninguém esperava de verdade que ela ocupasse uma sala de aula cheia de rapazes.
Exercício: a data em algarismos romanos
A folha de rosto das Instituzioni traz a data MDCCXLVIII. Que ano é? E como se escreveria o ano da morte de Agnesi, 1799?
M = 1000, D = 500, CC = 200, XL = 40 (10 antes de 50), VIII = 8. Total: $1000 + 500 + 200 + 40 + 8 = 1748$. Para 1799: M (1000) + DCC (700) + XC (90) + IX (9) = MDCCXCIX.
Exercício: três datas
Elena Cornaro Piscopia recebeu o doutorado em 1678, Laura Bassi em 1732, e Agnesi foi nomeada em Bolonha em 1750. Quantos anos separam cada par de datas? E quantos anos se passaram de 1750 até a primeira mulher eleita para a Academia de Ciências de Paris, em 1979?
De 1678 a 1732: 54 anos. De 1732 a 1750: 18 anos. De 1678 a 1750: 72 anos. De 1750 a 1979: 229 anos.
Fontes: Maria Gaetana Agnesi, Oratio qua ostenditur artium liberalium studia a femineo sexu neutiquam abhorrere (1727) · Paula Findlen, “Science as a Career in Enlightenment Italy: The Strategies of Laura Bassi”, Isis 84 (1993) · Massimo Mazzotti, The World of Maria Gaetana Agnesi, Mathematician of God (2007) · Judith P. Zinsser, La Dame d’Esprit: A Biography of the Marquise du Châtelet (2006).
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