A vida de Maria Gaetana Agnesi
Linha do tempo
- 1718Nasce em Milão em 16 de maio, a primeira dos 21 filhos de Pietro Agnesi, rico comerciante de seda.
- 1727Aos nove anos recita em latim um discurso em defesa dos estudos das mulheres.
- 1738Publica as Propositiones philosophicae, 191 teses de filosofia e ciência natural que defendia nas reuniões da casa do pai.
- 1739Pede ao pai para entrar num convento; ele recusa.
- 1748Publica o primeiro volume das Instituzioni analitiche, dedicado à imperatriz Maria Teresa. O segundo sai em 1749.
- 1750O papa Bento XIV a nomeia para a cátedra de matemática da Universidade de Bolonha. Ela nunca vai a Bolonha.
- 1752Morre o pai. Agnesi deixa a matemática e passa a cuidar de mulheres pobres e doentes.
- 1771É fundado em Milão o Pio Albergo Trivulzio, asilo para idosos pobres. Agnesi é chamada para dirigir a ala das mulheres.
- 1799Morre em 9 de janeiro, no asilo, e é enterrada numa vala comum.
A menina dos salões
Maria Gaetana Agnesi nasceu em Milão em 16 de maio de 1718. A cidade era então a capital de um ducado governado pelos Habsburgo de Viena. O pai, Pietro Agnesi, tinha enriquecido com o comércio de seda e queria que a família subisse na sociedade milanesa. Casou-se três vezes e teve 21 filhos. Maria Gaetana era a mais velha.
Pietro descobriu cedo que a filha aprendia com uma facilidade fora do comum e contratou para ela os melhores professores da cidade. Antes dos onze anos, Maria Gaetana já falava, além do italiano, francês, latim, grego, hebraico, alemão e espanhol; os visitantes a chamavam de “oráculo de sete línguas”. Pietro passou a exibir a filha em reuniões na casa da família, onde sábios, nobres e viajantes estrangeiros lhe faziam perguntas de filosofia, física e matemática, e ela respondia na língua de cada um. A irmã mais nova, Maria Teresa, tocava cravo nessas noites; mais tarde se tornou compositora.
Em 1727, aos nove anos, recitou num desses encontros um longo discurso em latim, escrito em italiano por um dos seus professores e traduzido por ela, defendendo que as mulheres tinham o mesmo direito de estudar que os homens. Em 1738 publicou as Propositiones philosophicae, uma lista de 191 teses sobre lógica, mecânica, astronomia, química, botânica e mineralogia que ela tinha defendido diante dos convidados.
Um desses visitantes, o magistrado francês Charles de Brosses, esteve na casa dos Agnesi em 1739 e deixou um relato. Encontrou uma moça de vinte anos que discutiu com ele, em latim, questões de física e de geometria, e que lhe confessou não gostar de ser exibida naquelas sessões.
O convento que não houve
Segundo os seus biógrafos, foi por essa época que Maria Gaetana pediu ao pai para entrar num convento. Pietro, que dependia dela para a educação dos irmãos menores e para o prestígio da casa, recusou. Chegaram a um acordo: ela continuaria em casa, mas poderia se vestir com simplicidade, ir à igreja quando quisesse e se afastar das festas e dos salões.
Livre das apresentações, Agnesi se voltou para a matemática. O seu guia foi Ramiro Rampinelli, monge olivetano e matemático que conhecia bem o novo cálculo. Durante quase dez anos ela trabalhou num livro para ensinar análise aos irmãos e, em geral, aos jovens italianos.
O livro
As Instituzioni analitiche ad uso della gioventù italiana (“Instituições analíticas para uso da juventude italiana”) saíram em Milão em 1748 (primeiro volume) e 1749 (segundo). Para acompanhar de perto a composição das fórmulas, o livro foi impresso numa gráfica instalada na própria casa dos Agnesi. O livro foi dedicado à imperatriz Maria Teresa, que lhe mandou em agradecimento uma carta, um anel de diamantes e um estojo de cristal cravejado de diamantes.
O sucesso foi imediato. Uma comissão da Academia de Ciências de Paris examinou a obra em 1749 e a declarou o tratado mais completo e mais bem organizado do gênero. Em As Instituzioni analitiche contamos o que havia no livro.
A cátedra de Bolonha
O papa Bento XIV, que tinha sido arcebispo de Bolonha e se interessava por ciência, escreveu a Agnesi para cumprimentá-la e lhe mandou uma medalha e uma coroa de ouro. Em 1750 foi além: nomeou-a para a cátedra de matemática da Universidade de Bolonha. Bolonha já tinha dado um passo semelhante em 1732, quando concedeu o doutorado e uma cátedra de física a Laura Bassi; Agnesi seria a segunda mulher a receber uma nomeação como professora universitária.
Agnesi agradeceu, mas nunca foi a Bolonha nem deu aula ali. Mesmo assim, o seu nome ficou na lista de professores da universidade por cerca de 45 anos. A história está contada em Uma mulher na universidade.
Os pobres de Milão
Pietro Agnesi morreu em 1752. A partir de então Maria Gaetana deixou a matemática quase por completo. Passou a estudar teologia, ensinar catecismo e cuidar de doentes, primeiro em alguns cômodos da própria casa, depois em instituições de caridade, gastando nelas a herança.
Em 1771 foi aberto em Milão, com uma doação do príncipe Antonio Tolomeo Trivulzio, o Pio Albergo Trivulzio, um asilo para idosos pobres. O arcebispo de Milão convidou Agnesi para visitar e dirigir a ala das mulheres, sobretudo das doentes. Ela acabou indo morar lá.
Maria Gaetana Agnesi morreu no asilo em 9 de janeiro de 1799, aos 80 anos. Tinha gastado tudo o que possuía. Foi enterrada numa vala comum, junto com outros quinze pobres. No mesmo ano, Antonio Francesco Frisi publicou um Elogio histórico dela.
Exercício: quantos anos?
Agnesi nasceu em 16 de maio de 1718. Quantos anos tinha quando recitou o discurso (1727), quando publicou o primeiro volume das Instituzioni (1748), quando foi nomeada em Bolonha (outubro de 1750) e quando morreu (9 de janeiro de 1799)?
Em 1727 tinha 9 anos (ou 8, se o discurso foi antes de 16 de maio). Em 1748, 30. Em outubro de 1750, 32. Em janeiro de 1799 ainda não tinha feito aniversário naquele ano: $1798 - 1718 = 80$ anos.
Exercício: matemática e caridade
Agnesi trabalhou cerca de dez anos no livro, até 1748, e cuidou dos pobres de 1752 até 1799. Que fração da sua vida adulta, contada a partir dos 18 anos, ela dedicou a cada uma das duas tarefas?
A vida adulta vai de 1736 a 1799: 63 anos. O livro ocupou uns 10 anos, ou $\frac{10}{63} \approx 16\%$. A caridade ocupou $1799 - 1752 = 47$ anos, ou $\frac{47}{63} \approx 75\%$. A matemática que a tornou famosa foi um capítulo curto de uma vida dedicada sobretudo aos outros.
Fontes: Antonio Francesco Frisi, Elogio storico di Donna Maria Gaetana Agnesi (1799) · Massimo Mazzotti, The World of Maria Gaetana Agnesi, Mathematician of God (2007) · Clifford Truesdell, “Maria Gaetana Agnesi”, Archive for History of Exact Sciences 40 (1989) · biografia de Agnesi, MacTutor · Charles de Brosses, Lettres familières écrites d’Italie (escritas em 1739–1740).
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