Linha do tempo

  1. 1749
    Nasce em 23 de março em Beaumont-en-Auge, na Normandia, filho de um comerciante de sidra.
  2. 1765
    Entra na Universidade de Caen para estudar teologia.
  3. 1768
    Vai a Paris com uma carta de recomendação para d’Alembert.
  4. 1770
    Torna-se professor de matemática da Escola Militar de Paris.
  5. 1773
    É eleito para a Academia de Ciências, na terceira tentativa.
  6. 1783
    Publica com Lavoisier a memória sobre o calor e o calorímetro de gelo.
  7. 1785
    Examina o cadete Napoleão Bonaparte. Explica a grande desigualdade de Júpiter e Saturno.
  8. 1788
    Casa-se com Marie-Charlotte de Courty de Romanges.
  9. 1793
    Deixa Paris durante o Terror.
  10. 1796
    Publica a Exposição do sistema do mundo.
  11. 1799
    Saem os dois primeiros volumes da Mecânica celeste. É ministro do Interior por seis semanas.
  12. 1806
    Torna-se conde do Império.
  13. 1812
    Publica a Teoria analítica das probabilidades.
  14. 1814
    Publica o Ensaio filosófico sobre as probabilidades.
  15. 1817
    Recebe de Luís XVIII o título de marquês.
  16. 1827
    Morre em Paris em 5 de março.
  1. Nasce em 23 de março de 1749, filho de um comerciante de sidra. Estuda na escola dos beneditinos da cidade.
  2. Entra na Universidade de Caen para estudar teologia. Dois professores, Gadbled e Le Canu, descobrem o seu talento para a matemática.
  3. Chega a Paris com uma carta para d’Alembert, que lhe arranja o posto de professor na Escola Militar. Em 1785 examina o jovem Napoleão.
  4. Durante o Terror, deixa Paris com a família e se refugia a uns 50 km da capital. Volta depois da queda de Robespierre.
  5. Ensina na Escola Normal, dirige o Escritório das Longitudes, é ministro do Interior por seis semanas e depois senador e chanceler do Senado, que se reúne no Luxemburgo.
  6. Compra uma casa de campo vizinha à do químico Berthollet. Ali se reúne a Sociedade de Arcueil, um círculo de jovens cientistas.
  7. Morto em Paris em 5 de março de 1827, é sepultado no Père-Lachaise. Em 1888 os restos são levados para o mausoléu da família, na Normandia.
Da Normandia a Paris, com o refúgio durante o Terror e a casa de campo em Arcueil, e de volta à Normandia para o túmulo. Mapa: © colaboradores do OpenStreetMap
  1. 1749–1765 · Beaumont-en-Auge
  2. 1765–1768 · Caen
  3. 1769–1793 · Paris
  4. 1793–1794 · Melun
  5. 1795–1814 · Paris
  6. 1806–1827 · Arcueil
  7. 1888 · Saint-Julien-de-Mailloc
Da Normandia a Paris, com o refúgio durante o Terror e a casa de campo em Arcueil, e de volta à Normandia para o túmulo.

Um menino da Normandia

Pierre-Simon Laplace nasceu em 23 de março de 1749 em Beaumont-en-Auge, uma aldeia da Normandia cercada de pomares de maçã. O pai, também chamado Pierre, vivia com algum conforto do comércio de sidra; a mãe, Marie-Anne Sochon, vinha de uma família de lavradores prósperos. Pouco se sabe da sua infância, e o próprio Laplace, quando ficou famoso, falava pouco dela.

Beaumont-en-Auge, a aldeia natal de Laplace, com a torre da igreja de Saint-Sauveur ao fundo.
Beaumont-en-Auge, a aldeia natal de Laplace, com a torre da igreja de Saint-Sauveur ao fundo.DimiTalen · Wikimedia Commons · CC0

Dos sete aos dezesseis anos estudou como externo na escola dos monges beneditinos da aldeia. O caminho natural era a Igreja, e aos dezesseis anos entrou na Universidade de Caen para estudar teologia. Ali dois professores, Christophe Gadbled e Pierre Le Canu, perceberam que o rapaz tinha um talento raro para a matemática. Depois de dois anos em Caen, sem tirar diploma, Laplace abandonou a carreira eclesiástica.

A carta para d’Alembert

Aos dezenove anos, Laplace partiu para Paris levando uma carta de Le Canu para Jean le Rond d’Alembert, o matemático mais influente da França. Conta-se que d’Alembert não deu muita atenção à carta e que o jovem então lhe escreveu, ele mesmo, sobre os princípios da mecânica; impressionado, d’Alembert teria respondido que uma recomendação era desnecessária, porque Laplace se apresentara melhor sozinho. A história chegou até nós em versões diferentes, mas o resultado é certo: d’Alembert passou a orientar os estudos do rapaz e arranjou-lhe um emprego.

Jean le Rond d’Alembert retratado por Catherine Lusurier em 1777. Foi ele quem abriu as portas de Paris para Laplace.
Jean le Rond d’Alembert retratado por Catherine Lusurier em 1777. Foi ele quem abriu as portas de Paris para Laplace.Catherine Lusurier · Wikimedia Commons · domínio público

Em 1770 Laplace era professor de matemática da Escola Militar de Paris, onde se formavam os oficiais do rei. No mesmo ano apresentou o seu primeiro trabalho à Academia de Ciências. Nos três anos seguintes mandou à Academia uma memória atrás da outra, sobre equações diferenciais, probabilidade, mecânica celeste. Foi recusado em 1771 e em 1772, quando outros candidatos mais velhos foram preferidos, e finalmente eleito em 31 de março de 1773, aos 24 anos.

A Escola Militar de Paris, no Campo de Marte. Laplace ensinou ali a partir de 1770, e em 1785 examinou ali o cadete Napoleão Bonaparte.
A Escola Militar de Paris, no Campo de Marte. Laplace ensinou ali a partir de 1770, e em 1785 examinou ali o cadete Napoleão Bonaparte.DXR · Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0

O gelo de Lavoisier

Laplace não fazia só cálculos. No começo da década de 1780 trabalhou com o químico Antoine Lavoisier num aparelho engenhoso, o calorímetro de gelo. A ideia era medir calor pela quantidade de gelo derretido: um animal ou uma reação química ficava no centro, cercado por camadas de gelo, e a água que escorria era pesada. Com ele os dois mostraram, entre outras coisas, que a respiração de um porquinho-da-índia produz aproximadamente o mesmo calor que a queima do carvão que libera o mesmo gás carbônico: respirar é uma forma lenta de combustão. A Memória sobre o calor saiu em 1783.

O calorímetro de Lavoisier e Laplace numa gravura colorida à mão de 1801. O gelo das camadas externas isolava o aparelho; o das camadas internas derretia com o calor produzido no centro.
O calorímetro de Lavoisier e Laplace numa gravura colorida à mão de 1801. O gelo das camadas externas isolava o aparelho; o das camadas internas derretia com o calor produzido no centro.John Pass, a partir de Henry Lascelles · Wikimedia Commons · domínio público

O examinador de Napoleão

Em 1784 Laplace foi nomeado examinador do corpo real de artilharia. Na sua lista de 1785 estava um cadete corso de dezesseis anos, Napoleão Bonaparte, que foi aprovado. Os dois se reencontrariam muitas vezes. No mesmo ano Laplace resolveu um dos grandes enigmas da astronomia, a desigualdade de Júpiter e Saturno, e subiu de posto na Academia.

Em 1788, aos 39 anos, casou-se com Marie-Charlotte de Courty de Romanges, de dezenove. Tiveram dois filhos: Charles-Émile, nascido em 1789, que seria general, e Sophie-Suzanne, que morreu de parto em 1813.

A Revolução

A Revolução Francesa transformou a ciência em assunto de Estado. Em 1790 Laplace entrou na comissão da Academia encarregada de criar um sistema de pesos e medidas racional, que resultaria no metro: a décima milionésima parte da distância do polo ao equador. Mas em 1793 a Convenção dissolveu as academias, e o Terror começou a mandar cientistas para a guilhotina. Laplace foi afastado da comissão e deixou Paris com a família, refugiando-se a uns cinquenta quilômetros da capital. Lavoisier, o amigo do calorímetro, foi guilhotinado em maio de 1794. Laplace só voltou depois da queda de Robespierre, em julho daquele ano.

Um dos metros-padrão de mármore instalados em Paris em 1796–1797 para que a população se acostumasse com a nova medida. Este fica na rua de Vaugirard.
Um dos metros-padrão de mármore instalados em Paris em 1796–1797 para que a população se acostumasse com a nova medida. Este fica na rua de Vaugirard.Airair · Wikimedia Commons · CC BY-SA 3.0

Em 1795 vieram os anos de reconstrução. Laplace ensinou na recém-criada Escola Normal, que durou poucos meses mas teve lições famosas, entre elas as suas sobre probabilidade, e ajudou a fundar o Escritório das Longitudes, encarregado da astronomia e da navegação. Em 1796 publicou a Exposição do sistema do mundo, um livro sem fórmulas, para o grande público, onde aparecem a hipótese da nebulosa e as estrelas escuras.

Seis semanas de ministro

Em novembro de 1799, depois do golpe que o levou ao poder, Napoleão nomeou o antigo examinador ministro do Interior. A experiência durou seis semanas. Anos depois, no exílio de Santa Helena, Napoleão resumiu o caso com crueldade: Laplace “procurava sutilezas em tudo, só tinha ideias problemáticas e levava para a administração o espírito dos infinitamente pequenos”.

O consolo foi grande. Laplace passou para o Senado, de que chegou a chanceler, recebeu a Legião de Honra e em 1806 o título de conde do Império. Entre 1799 e 1805 saíram os quatro primeiros volumes da Mecânica celeste; o quinto viria em 1825.

Laplace com o traje de chanceler do Senado, num retrato póstumo pintado por Jean-Baptiste Paulin Guérin em 1838.
Laplace com o traje de chanceler do Senado, num retrato póstumo pintado por Jean-Baptiste Paulin Guérin em 1838.Jean-Baptiste Paulin Guérin · Wikimedia Commons · domínio público

A Sociedade de Arcueil

Em 1806 Laplace comprou uma casa de campo em Arcueil, ao sul de Paris, vizinha à do químico Claude Louis Berthollet. Os dois reuniram ali um círculo de jovens cientistas, a Sociedade de Arcueil, que incluía Biot, Gay-Lussac, Arago e Poisson. Laplace usava a influência que tinha para conseguir postos e verbas para os seus protegidos, e eles, por sua vez, levavam adiante o seu programa: explicar a luz, o calor, a capilaridade e o som por forças entre partículas, como Newton fizera com a gravidade.

Foi também a época das grandes obras sobre o acaso: a Teoria analítica das probabilidades, de 1812, dedicada a Napoleão, e o Ensaio filosófico sobre as probabilidades, de 1814, uma versão sem fórmulas das lições de 1795.

O marquês

Laplace sabia mudar de lado. Em 1814 votou no Senado pela deposição de Napoleão; depois da queda definitiva do imperador, Luís XVIII fez dele par de França e, em 1817, marquês. A dedicatória a Napoleão desapareceu das edições seguintes da Teoria analítica. Em 1816 entrou para a Academia Francesa. Muitos contemporâneos o acharam oportunista; os mais generosos lembravam que ele usou a influência para proteger a ciência e os cientistas em tempos violentos.

Laplace morreu em Paris na manhã de 5 de março de 1827, aos 77 anos. Segundo os relatos dos que estavam com ele, as suas últimas palavras foram: “O que sabemos é pouca coisa; o que ignoramos é imenso”. Foi enterrado no cemitério do Père-Lachaise; em 1888 os restos foram levados para a Normandia, para o mausoléu dos descendentes da família, em Saint-Julien-de-Mailloc.

O túmulo de Laplace na cripta do mausoléu da família Colbert-Laplace, em Saint-Julien-de-Mailloc, na Normandia.
O túmulo de Laplace na cripta do mausoléu da família Colbert-Laplace, em Saint-Julien-de-Mailloc, na Normandia.Antoine Rex · Wikimedia Commons · CC0
Exercício: a idade de cada título

Laplace nasceu em 1749, foi eleito para a Academia em 1773, tornou-se conde em 1806 e marquês em 1817. Quantos anos tinha em cada ocasião, e quanto tempo separa a eleição para a Academia do título de marquês?

A eleição foi em 31 de março de 1773, oito dias depois do aniversário: tinha acabado de fazer 24 anos. Em 1806 tinha 57; em 1817, 68. Da Academia ao marquesado passaram $1817 - 1773 = 44$ anos.

Exercício: o metro original

O metro foi definido em 1791 como a décima milionésima parte da distância do polo norte ao equador, medida sobre um meridiano. Qual seria, por essa definição, a circunferência da Terra passando pelos polos?

Do polo ao equador há um quarto de meridiano, ou seja, $10\,000\,000$ m $= 10\,000$ km. O meridiano inteiro tem quatro quartos: 40 000 km. O valor medido hoje é cerca de 40 008 km; a diferença vem de pequenos erros na medição do século XVIII.

Fontes: Charles Coulston Gillispie, Pierre-Simon Laplace, 1749–1827: A Life in Exact Science (1997) · Roger Hahn, Pierre Simon Laplace, 1749–1827: A Determined Scientist (2005) · biografia de Laplace, MacTutor · Joseph Fourier, Éloge historique de M. le Marquis de Laplace (1829).


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